“EU SEM ELE SOU METADE”: SENTIDOS PRODUZIDOS POR MULHERES USUÁRIAS DE UMA UBS ACERCA DO AMOR ROMÂNTICO E VIOLÊNCIA

Autores

  • Telma Low Silva Junqueira
  • Isis Voronkoff Carnaúba de Castro
  • Sthéfanny Regina Santos Rocha Gonzaga

Palavras-chave:

Gênero. Mito do amor romântico. Violência contra as mulheres.

Resumo

Esta proposta se situa em um dos eixos da pesquisa intitulada “Gênero e violência contra as mulheres no contexto da Atenção Básica do município de Maceió/AL”, realizada no período de agosto de 2016 a julho de 2017 em uma Unidade Básica de Saúde (UBS). A pesquisa tinha como objetivo compreender quais os sentidos produzidos acerca de gênero e violência contra as mulheres (VCM) por profissionais, gestão, mulheres e homens usuárias/os vinculadas/os à um serviço de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS). Desta forma, os referenciais teóricos foram as Práticas Discursivas e Produção de Sentidos e a perspectiva feminista de gênero, tendo as observações no cotidiano e entrevistas semiestruturadas como ferramentas metodológicas. Neste trabalho, optamos por focar nas entrevistas realizadas com duas mulheres usuárias da UBS, através das quais foram geradas reflexões acerca da interface entre gênero, violência contra as mulheres e mito do amor romântico. Ambas as entrevistas foram realizadas de acordo com a disponibilidade das usuárias e sob a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Para manter o anonimato, as participantes escolheram nomes fictícios: Célia (48) e Maria (46). Célia declarou-se negra, heterossexual, solteira e aposentada. Tem dois filhos, é evangélica e seu grau de formação é o ensino médio incompleto. Maria também declarou-se heterossexual e solteira, porém não tem filhos/as, identifica sua raça/etnia como “brasileira” e sua religião como “Católica Cristã Kardecista Ecumênica”. É formada em Química Industrial e na época da entrevista disse estar desempregada.
Consideramos que refletir sobre a construção sócio-histórica do amor e sobre os sentidos atribuídos a ele nas práticas cotidianas é fundamental para compreendermos as relações de gênero na contemporaneidade. Pois, a partir da perspectiva feminista, é possível analisarmos de que forma os ideais de amor romântico participam do processo de produção das subjetividades e como contribuem para a construção de relações assimétricas, que trazem implicações, sobretudo para as mulheres, principalmente no que se refere ao tema da violência. Nesse sentido, acrescentamos perguntas referentes aos sentidos produzidos pelas mulheres entrevistadas no que diz respeito ao amor e suas interfaces com gênero e VCM: “1. Como você compreende o amor? 2. Homens e mulheres expressam amor da mesma forma? 3. Existe relação entre violência e amor?”. No que diz respeito a sua compreensão acerca do amor, as entrevistadas convergem quando o relatam não somente como sentimento, mas como uma construção diária que envolve uma série de elementos: esforço, cuidado, carinho, companheirismo e cuidado com “o outro”. As duas destacam a necessidade de liberdade nos relacionamentos amorosos e Célia traz a questão do ciúme e da posse como fatores que extrapolam as condições de um “amor saudável”: “O amor não saudável, que é esse que ele acha que é dono da pessoa: ‘Eu amo, mas você é meu!’. [...] Aí vem esse tal desse ciúme...”. Maria, por sua vez, problematiza o amor romântico como uma construção e destaca as formas pelas quais as mulheres são ensinadas a almejar este tipo de amor: “Porque elas conhecem o amor da forma que elas veem na mídia, no que elas tiveram formação, assim, foi embutido na mente dela”. As falas das mulheres entrevistadas apontam para uma ideia naturalizada de feminilidade, onde o amor ocupa lugar privilegiado. O cuidado e a entrega incondicional ao outro, compreendidos como expressões do sentimento amoroso, são associados a qualidades inerentes às mulheres. No entanto, as entrevistadas não colocam essa dimensão afetiva em primeiro plano quando falam da posição dos homens nos relacionamentos, pois os descrevem como pessoas mais direcionadas à sexualidade, que não costumam demonstrar amor abertamente. Em uma de suas falas, Maria comenta que “o homem normalmente não ama como mulher, é diferente, por isso que Deus deu à mulher a capacidade de ser mãe, [...] é o amor infinito, a capacidade de se entregar pelo outro, de se doar, é mais da mulher.”, enquanto Célia, a respeito da vivência e expressão do sentimento amoroso, coloca que “é muito difícil um homem mostrar que ele ama. Já a mulher não, a mulher quando ela ama, é aquele cuidado, [...] a mulher se dedica de corpo e alma!”. Estes mesmos discursos genderizados também são reproduzidos histórica e cotidianamente nas diversas narrativas sobre o amor, a exemplo de contos de fadas, livros, filmes e novelas — geralmente direcionados/as ao público feminino. Nesse sentido, constroem posições para mulheres e homens enquanto “identidades” opostas e complementares, ao passo que sua união resultaria em um equilíbrio a ser almejado nos
relacionamentos amorosos. Tendo em vista o caráter heteronormativo destas descrições, ressaltamos que as mulheres entrevistadas se declararam heterossexuais e por isso seus relatos são voltados para vínculos desse cunho, o que não exclui que estas mesmas expectativas sejam reproduzidas em relações homoafetivas. Apesar das mulheres entrevistadas compreenderem a feminilidade como uma condição natural intrinsecamente relacionada com a emoção/afetividade, elas também questionaram o lugar que o amor ocupa dentro das relações, muitas vezes usado como justificativa para o exercício da violência. Por exemplo, a entrevistada Maria comentou que “ainda tem mulheres que acham que é prova de amor ser silenciada dentro de casa, não poder falar, não poder estudar [...]”, e Célia que “tem gente que acha que o ciúme, ele é uma prova de amor!”. Elas descrevem as mulheres em situação de violência como pessoas submissas e desprovidas de “amor próprio” ou autoestima, que aceitam e se adaptam às imposições de seus companheiros por acreditarem que os ciúmes, o “sentimento de posse” e as demandas de isolamento de seus círculos sociais são provas de amor. Galarza, Doménech e Rivero (2005), analisaram a centralidade do amor no processo de produção da identidade de gênero, que situa as mulheres como “sujeito de carência ou de necessidade” e não como “sujeito de interesse”. Elas chamam atenção para o processo por meio do qual as mulheres são constantemente encorajadas a criarem e manterem relações afetivas, de forma que essa se torna uma de suas principais motivações, pela qual elas passam a organizar as próprias vidas. Desse modo, as mulheres se encontrariam envoltas no conflito entre a construção de uma identidade mais individualizada, que as posiciona no lugar de sujeitos de desejo e capacidade de ação - o que acarreta medo e sentimento de culpa, e o lugar de objetos do desejo masculino. Neste sentido, o mito do amor romântico vem sendo questionado pela agenda feminista, pois ele contribui para o estabelecimento de relações baseadas em assimetrias de poder, podendo funcionar como agente provocador da violência contra as mulheres. Durante o percurso da pesquisa puderam ser analisados os sentidos produzidos pelas mulheres usuárias acerca dessa interface entre o amor e suas possíveis aproximações ou distanciamentos em relação à violência contra as mulheres. Os resultados dessa análise, ainda em andamento, serão apresentados na comunicação oral.

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Publicado

30/08/2018

Edição

Seção

Resumos do I Congresso Internacional de Direito Público dos Direitos Humanos e Políticas de Igualdade