SOBRE CORPOS E EXISTÊNCIAS REGULADOS: CONTRIBUIÇÕES DE NARRATIVAS LITERÁRIAS DISSIDENTES PARA A EDUCAÇÃO

Autores

  • Késia dos Anjos Rocha

Palavras-chave:

Gênero. Raça. Literatura infanto-juvenil. Educação gênero. Raça. Literatura infanto-juvenil. Educação

Resumo

Temos acompanhado nos últimos anos a grande visibilidade de posições e visões conservadoras que têm se materializado em discursos de ódio, veiculados e disseminados por várias mídias (rádio, televisão e principalmente internet) contra todos/as aqueles/as que não se encaixam nos padrões hegemônicos – brancos/as, heterossexuais, monogâmicos/as, cristãos/ãs, cisgênero. Esses discursos têm surgido também como ações concretas nos governos estaduais, municipais e federais por meio de projetos de leis que buscam estabelecer o que é família, o que as mulheres podem ou não decidir sobre seus corpos, o que a escola deve ou não falar a respeito de gênero, raça, sexualidades. As histórias infantis, os livros didáticos, o currículo de forma geral, têm contribuído para a manutenção de uma perspectiva monocultural que busca desenhar identidades sociais, sexuais, raciais e de gênero, consideradas “normais”. Essas narrativas e discursos contribuem na produção de identidades, uma vez que, são atravessados por relações de poder que vão dizer como crianças, jovens e adultos/as pensam/vivem suas vidas, como entendem o que é ser “homem”, “mulher”, negro/a, branco/a etc. O presente trabalho busca analisar práticas discursivas dissidentes sobre os diferentes marcadores sociais das diferenças (raça, gênero, sexualidades) no contexto da literatura infantojuvenil, a partir das teorizações decoloniais, feministas e queer. Para tanto traremos como objetos de análise duas obras literárias infantojuvenis, a obra “Omo-Oba – Histórias de princesas” da escritora Kiusam de Oliveira, lançado em 2009, que foi adotada como livro paradidático pela escola SESI de Volta Redonda (RJ) em 2018 e a obra “A princesa e a costureira” de Janaína Leslão, livro lançado em 2015. Omo-Oba apresenta a história de princesas inspiradas na mitologia iorubá, nessa história, elementos das culturas e identidades africanas e afro-brasileiras são apresentados como possibilidades reais para crianças e jovens criarem conexões de identificação e pertencimento. “A princesa e a costureira” nos traz uma história de amor entre duas mulheres, uma princesa que nas vésperas de seu casamento apaixona-se perdidamente pela costureira, e desta maneira abre brechas para possibilidades outras de existências; Leslão nos apresenta um enredo que caminha para além das perspectivas normativas e essencialistas que têm predominado nas histórias infantis. As duas obras têm em comum o fato de se apresentarem como narrativas dissidentes no que se refere a gênero, sexualidades e raça; apresentam também em comum o fato de terem sofrido com regulações sociais e políticas, uma (A princesa e a costureira) foi alvo de ataques e agressões por parte de grupos religiosos e instâncias sociais conservadoras, a outra (Omo-Oba – Histórias de princesas) foi alvo da regulação de pais de alunos/as que solicitaram que a escola retirasse a obra da lista de livros paradidáticos escolhidos para integrar o currículo. Em diálogo com as reflexões e conceitos de autores e autoras feministas, decoloniais e queer e compreendendo essas obras como tecnologias sociais, buscaremos identificar alguns dos fatores que criaram condições para que essas produções contra hegemônicas emergissem e a partir da análise desses dois episódios e dos discursos veiculados sobre eles, destacaremos as possíveis contribuições trazidas por essas narrativas, para o contexto da educação e, especificamente, para o âmbito das políticas educacionais de currículo problematizando-o como lugar/espaço/território de resistência e também de assujeitamento.

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Publicado

01/09/2018

Edição

Seção

Resumos do I Congresso Internacional de Direito Público dos Direitos Humanos e Políticas de Igualdade