SUICÍDIO DE MULHERES: A (IN)VISIBILIDADE DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA COMO CAUSA DA MORTE AUTO-INFLINGIDA

Autores

  • Thaís Zanetti de Mello Moretto
  • Alberto Goerght
  • Denise Quaresma da Silva

Palavras-chave:

Suicídio. Violência doméstica. Gênero

Resumo

Metodologicamente o estudo teórico visa uma pesquisa qualitativa com o objetivo de estudar a intercorrência de suicídio de mulheres em razão de violência doméstica. Pesquisas desenvolvidas acerca do tema, demonstram que esta é uma realidade considerada expressiva, na medida em que se percebe que a cada 2 minutos a violência acaba sendo o responsável por mais de 80% de casos reportados. Logo, torna-se possível afirmar que esses índices possam ser ainda mais significativos, já que, em muitos casos, os relatos acabam não chegando ao conhecimento da autoridade policial, i.e., aquilo que denominamos de cifras ocultas.Neste aspecto, para além deste tipo de violência ser considerada inaceitável por diversos mecanismos internacionais, a Organização Mundial da Saúde – OMS, considera que a violência – em seu aspecto mais amplo – e não apenas a violência praticada contra a mulher, é um caso de saúde pública. Levando em consideração esse aspecto, bem como a complexidade que tais violências apresentam, entendemos que seja importante (re)pensar esse tipo de prática violenta para além de uma perspectiva punitivista, i.e., se trata de avaliar essas situações sob o viés preventivo, buscando mecanismos que possam diminuir as consequências oriundas da violência doméstica e familiar contra as mulheres.Assim, em um aspecto redutor de danos de tais práticas, é importante o estabelecimento de um diálogo acadêmico comprometido em analisar os reflexos oriundos da violência doméstica e familiar contra as mulheres. Diz-se isso porque, após a vítima ser violentada, sob as mais diversas modalidades de violência que possam porventura ocorrer, não é incomum a presença de sofrimento psíquico desencadeador de morte auto-inflingida. Em que pese exista essa realidade, é flagrante a ausência de estudos que realizam levantamento e análise, sobre os efeitos nocivos – posteriores - a dinâmica da violência na qual as mulheres se encontram inseridas, no caso, o suicídio.Segundo dados da Organização Mundial da Saúde – OMS, as mulheres perfazem um alto índice de tentativas de suicídio, sendo superiores aos dados de tentativas de suicídio praticadas por homens. Entretanto, quando analisamos os dados dos suicídios praticados, percebemos que os índices masculinos são maiores do que a estatística feminina pelo suicídio efetivamente praticado. Outro fator em destaque nas questões que envolvem a prática do suicídio é que os índices envolvem também os métodos utilizados para a prática da morte auto-inflingida, o que implica dizer que a forma como o indivíduo retira ou tenta retirar a sua própria vida é diferente quando estamos analisando dados femininos se comparado aos masculinos. É importante considerar que, sob a perspectiva da temática do suicídio no enfoque da violência doméstica e familiar contra as mulheres, os métodos escolhidos para a supressão da vida - independentemente de conseguirem realizar o seu intento - são métodos que integram o estudo da OMS, posto que, percebe-se uma grande diferença na forma como homens e mulheres realizama supressão da vida.Perceber a violência como um problema de saúde pública, e havendo um incremento nos índices deste tipo de violência, o que contribui também para a reflexão feita de que 1 (uma) em cada 3 (três) mulheres ou já foi vítima ou ainda será vítima de violência de gênero no mundo, coloca no epicentro de análise a visibilidade de tais práticas como uma pandemia. Importante salientar que, estando um País a demonstrar altos índices de suicídios e de suas tentativas entre as mulheres, coloca a complexidade da morte auto-inflingida, como um tema necessário e importante, na medida em que, levanta-se a suposição que grande parte dos suicídios realizados ou tentados possuem uma origem anterior, muitas vezes vinculada a violência de gênero oriunda de uma relação tóxica. Em que pese tudo isso, o que tema do presente estudo carece de análise científica e atenção acadêmica, inexistindopesquisas que investigam se o suicídio ou suas tentativas estejam relacionadas com a violência doméstica vivida, ocasião em que a violência doméstica acaba sendo um gatilho para ceifarem suas próprias vidas. A (in)visibilidade e a ausência de estudos sobre este tema remonta o desinteresse da vida humana feminina, o que não ocorre em relação as mortes masculinas, pois há uma incidência na divulgação de casos de suicídio ou de sua tentativa quando o corpo em questão é o masculino. Como consequência prática inevitável, pouco ou nada se fala sobre essa temática, muito embora os dados demonstrem um número significativo, ainda mais quando se percebe que os índices de tentativas de suicídio são muito superiores aos índices masculinos, portanto, se os casos em que há incidência de morte são de importante análise (e o que está em jogo é o corpo do homem), de igual modo deve interessar os altos índices de suas tentativas. Nessa
assertiva, o ano de 2014 foi marcado pela prática do suicídio como a segunda maior causa de morte por mulheres jovens, o que restou averiguado a partir de atestados de óbitos de mulheres entre os 15 a 29 anos de idade. Ocorre que, nos últimos 50 anos, o suicídio mundialmente sofreu um aumento em 60%, ou seja, cerca de 1 milhão de casos por ano, 3 mil casos por dia, e 1 morte a cada 40 segundos em algum lugar do mundo. Entretanto, com relação específica ao caso brasileiro, nosso país ocupada o 8° lugar no mundo com maior incidência nos casos de suicídio. Salienta-se que as mulheres tentam muito mais o suicídio, ou seja, quatro vezes mais do que os homens, porque o método utilizado para ‘escapar’ da vida são menos letais, se comparado aos homens, já que as formas encontradas pelos homens que cometam o suicídio são formas potencialmente letais e agressivos. A exemplo disso percebe-se que os homens se suicidam utilizando armas de fogo e o método do enforcamento, o que não ocorre com a maioria das mulheres, já que as mesmas costumam fazer uso de medicações ou de envenenamento. Depois do ano de 2011, quando então se tornaram notificações obrigatórias perante o sistema de saúde, obteve-se uma estimativa de registros mais fidedignas, chegando-se a 209,5%, atingindo cerca de 30 mil registros no ano de 2016, em torno de 82 casos por dia em média. Como resultado, tem-se que as mulheres possuem cerca de 2/3 dos registros oficiais, o que configura 65,9% dos casos. Ainda sobre essas incidências, segundo o Ministério da Saúde, com relação a análise de tentativas e de mortes ocasionados por suicídio no Brasil, o perfil das lesões autoprovocadas nas mulheres demonstram que cerca de 1/3 dessas lesões indicavam um caráter de repetição, ou seja, cerca de aproximadamente 33,1% buscam reiteradamente ceifar a sua própria vida.Em suma, é evidente a importância de se estudar as práticas de suicídio e de tentativa de suicídio praticadas por mulheres, já que, assim como é importante o estudo acerca da violência doméstica e familiar contra as mulheres, de igual modo torna-se imprescindível analisar os casos em que, após já terem sido vítimas destas praticadas criminosas, as mesmas ainda permanecem com o sofrimento psíquico que acarreta a impossibilidade de lidar com essa situação traumática, o que as conduz ao adoecimento e necessidade de eliminação da própria vida. Negligenciar a morte auto-inflingida de mulheres remonta a concepção de controle do corpo feminino, sobretudo se esse corpo feminino “pertencer” às regras do corpo masculino, adiciona-se a isso o fato de que, os índices relevantes de suicídio adicionado a questão de ser uma decorrência da violência doméstica e familiar contra as mulheres, portanto um caso de saúde pública, podendo-se traçar uma comparação a epidemia, já que os elevados números são uma realidade no mundo, além de ser um incremento anual.

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Publicado

01/09/2018

Edição

Seção

Resumos do I Congresso Internacional de Direito Público dos Direitos Humanos e Políticas de Igualdade