A PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO A PARTIR DE UMA VOZ SUBALTERNIZADA: CAROLINA MARIA DE JESUS

Autores

  • Érika Cecília Soares Oliveira
  • José Cícero dos Santos Júnior
  • Maria Laura Medeiros Bleinroth

Palavras-chave:

Carolina Maria de Jesus. Colonialidade do Saber. Perspectiva Decolonial. Interseccionalidade

Resumo

O presente trabalho é estruturado a partir de um recorte do projeto de iniciação científica intitulado “Pistas de Carolina Maria de Jesus para intervenção psicossocial”, realizado no curso de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas, tendo seu início em agosto de 2017 e com previsão de término em julho de 2019. O referente projeto tem como finalidade a análise das obras Diário de Bitita (1986) e Quarto de Despejo: diário de uma favelada (1960), ambas escritas por Carolina Maria de Jesus, mulher negra e semi-analfabeta, como possibilidade para (re)pensar as práticas de intervenções psicossociais a partir de um diálogo transdisciplinar. A primeira obra publicada pela escritora, Quarto de Despejo, teve em média dez mil exemplares vendidos nos primeiros dias, além de ter sido traduzida em treze idiomas e comercializada em mais de quarenta países. Contudo, Carolina cai no esquecimento em 1964, com o advento do golpe militar, época em que foi instaurada a censura àquelas/es que não seguissem a ordem e disciplina, normas que Carolina não cumpria, uma vez que trazia à tona a demagogia da política brasileira em seus escritos, como aponta um de seus biógrafos, José Carlos S. B. Meihy. Este contexto inicial chama atenção para o esquecimento incomum da escritora, considerando que seu livro inicial teve aproximadamente um milhão de cópias vendidas no mundo, deixando seu legado quase silenciado na cultura literária caso não fossem alguns sujeitos que buscam, na atualidade, dar visibilidade às contribuições da autora, como também aponta o biógrafo. Para as/os estudiosas/os de Carolina, é evidente que aspectos como gênero e raça, sua localização socioespacial e suas características (peculiares) de escrita dificultaram o reconhecimento de suas contribuições para os mais variados campos do saber, podendo também ter contribuído para seu posterior declínio e de suas obras. Nesse sentido, temos como objetivo no trabalho que ora apresentamos, expor Carolina enquanto escritora mulher e negra, que pode contar sua história por si só, compreendendo sua escrita enquanto prática contra-hegemônica às normas cultas da literatura, sendo esta uma expressão cultural da elite branca. Para alcançar este objetivo, considera-se pertinente apresentar o conceito de colonialidade do saber, proposta por Walter Mignolo, que está relacionado à discussão acerca do colonialismo epistemológico e suas formas de reprodução de regimes de pensamento, uma vez que essa concepção posiciona a escritora à margem dos padrões literários. Na mesma linha de pensamento, têm-se tanto as contribuições da teórica negra brasileira Lélia de Almeida Gonzalez, quanto da teórica estadunidense Kimberlé Crenshaw. A primeira busca destacar a importância dos conhecimentos transmitidos por pessoas próximas à realidade dos sujeitos marginalizados, trazendo em seus escritos que quando nos voltamos apenas para as teorias hegemônicas ocorre uma espécie de abstracionismo, corroborando assim com a proposta de descolonização do saber e da produção de conhecimento. Crenshaw, por sua vez, destaca sobre a necessidade de garantir que a discriminação de gênero que afeta mulheres e a discriminação racial que afeta mulheres negras sejam consideradas mutuamente e não de forma excludente. A partir disso, buscamos através de uma perspectiva de descolonização eurocêntrica discorrer acerca da pluralidade na produção do conhecimento.

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Publicado

02/09/2018

Edição

Seção

Resumos do I Congresso Internacional de Direito Público dos Direitos Humanos e Políticas de Igualdade