DISCUTINDO A LIDERANÇA FEMININA NO UNIVERSO DA CATAÇÃO DE RECICLÁVEIS NAS COOPERATIVAS DE CATADORES DE GOIÂNIA

Autores

  • Vanessa Maria Coelho Guimarães
  • Jeferson Henrique Farias de Andrade

Palavras-chave:

Mulheres líderes. Trabalho. Gênero. Economia Solidária. Direitos Humanos

Resumo

O mundo contemporâneo vem passando por várias mudanças nas estruturas familiares, econômicas, culturais e, emblematicamente, nos comportamentos humanos, refletindo diretamente sobre a inserção da mulher no mercado do trabalho. A mulher não mais ocupa somente a esfera doméstica, encorpando novos papéis femininos, contribuindo para o debate sobre mudanças sociais, gênero e patriarcado. A economia solidária apresenta-se como uma nova forma da mulher inserir-se no mercado de trabalho, surgindo como uma possibilidade de emancipação feminina do sistema de dominação/exploração da economia de mercado, construindo uma busca pela efetivação dos seus direitos humanos. Neste sentido, este estudo se propõe a avaliar as mulheres enquanto líderes das cooperativas de catadores de materiais recicláveis de Goiânia. Assim, primeiramente será feita uma abordagem do papel da mulher e seu entrelaçamento com o mercado de trabalho, mostrando sua participação crescente nas últimas décadas, com base em estudos que apontam que mulheres economicamente ativas em 1970 eram em torno de 18,5%, tendo este dado atingido o patamar de 59% em 2005. Ao mesmo tempo, mesmo diante de significativas mudanças, não há como negar que vivemos sob o prisma do patriarcado. É nesse sentido que abordaremos questões de gênero e patriarcado, bem como sobre a divisão sexual do trabalho. Posteriormente, buscar-se-á contextualizar no universo das cooperativas de catadores de material reciclável, como se desenvolve a participação dessas mulheres trabalhadoras nesses empreendimentos solidários de Goiânia, refletindo sobre as possibilidades de inclusão social que a economia solidária pode proporcionar. Assim, é feita uma análise sobre a vida e o trabalho da mulher catadora, o seu momento como protagonista de sua história enquanto líder dos empreendimentos cooperativistas. Será também apontado o cooperativismo popular solidário como formas alternativas à produção, bem como um solo fértil para se fazer nascer justiça social, igualdade de gênero, igualdade racial e efetivação dos direitos sociais e humanos. A realidade descrita constituiu-se através da uma observação participante, com entrevistas e histórias de vida, abrangendo uma pesquisa de cunho qualitativo e quantitativo, com Cooperativas integrantes da Rede UNIFORTE – Cooperativa Central das Cooperativas de Trabalho de Catadores de Materiais Recicláveis de Goiânia “Unidos Somos Mais Fortes”. Na estrutura social do universo da catação no Brasil, como aponta estudos do IPEA (2013), encontramos uma porcentagem de apenas 31,1% de mulheres envolvidas neste trabalho, refletindo raízes do sistema do “patriarcado” – um sistema no qual as maiorias das posições sociais são ocupadas por homens, e que funda uma hierarquia social permeada de imposição do homem sobre a mulher. Porém, emblematicamente, Goiânia tem apontado para uma realidade diversa, onde as mulheres emergem como protagonista neste meio de trabalho, lideram a maior parte dos empreendimentos e seguem à frente das cooperativas populares de catadores de recicláveis. Na pesquisa, constatou-se que nas cooperativas da Rede Uniforte, há 52,23% de trabalhadoras mulheres, sendo que a liderança feminina alcança 71% desses empreendimentos. O estudo reflete sobre como são essas “mulheres catadoras”, e como são percebidas nos seus espaços de trabalho, suas conquistas, e a forma como estão construindo um afastamento da ideia de que deveriam estar vinculadas somente à esfera doméstica, inserindo-se no campo econômico através da economia solidária. É neste sentido que o trabalho propõem um novo (re) interpretar do papel da mulher na esfera do trabalho, questionando o poder hegemônico-masculino tão enraizados em nossa sociedade. O debate será construído sobre os novos e velhos papeis femininos, proporcionando mudanças na reorganização e perpetuação de alguns sistemas de dominação/exploração, bem como no novo papel da mulher inserida no mercado de trabalho, em especial, na liderança do cooperativismo popular, apontando para o surgimento de uma “Economia Feminista”, que contribui para a visibilidade da mulher no mercado de trabalho, garantia dos seus direitos humanos e sociais, superação de exploração e de desigualdade.

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Publicado

02/09/2018

Edição

Seção

Resumos do I Congresso Internacional de Direito Público dos Direitos Humanos e Políticas de Igualdade