O SILÊNCIO QUE MUTILA: UMA REFLEXÃO ACERCA DA VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA DE GÊNERO

Autores

  • Kamila Silvestre Sampaio

Palavras-chave:

Violência psicológica. Moral. Silêncio. Mutilação.

Resumo

O trabalho a ser apresentado trata de uma reflexão, sob levantamento bibliográfico, acerca do comportamento que muitas mulheres apresentam ao longo da história quando agredidas psicologicamente: o silêncio. Pretende ainda, diante de dados apresentados em pesquisa, por meio de jornais eletrônicos, artigos científicos, obras literárias e procedimentos jurídicos conquistados, como a Lei Maria da Penha de 2006, refletir de que maneira esse comportamento protagoniza um meio de violência, identificando aspectos condicionados à naturalização deste, que levam ao silêncio e consequentemente sua mutilação. O resultado dessa pesquisa se apresenta numa cruel realidade social que perdura a atualidade num cenário de horror contra a mulher, estigmatizando-a a um comportamento padronizado segundo abordagens religiosas, filosóficas e tradicionalistas. Com a expansão dos movimentos feministas em meados da década de 70, a violência doméstica ganhou um espaço de debate e luta no cenário nacional, a fim de dar voz ao silêncio que muitas mulheres no decorrer da história, vêm sendo submetidas por medo das consequências violentas de assédio moral e psicológico proporcionadas pela conjuntura machista na qual se encontram as sociedades adeptas das manifestações de hierarquização de poder. Poder usufruído apenas pelo homem, visto que a mulher sempre “frágil” e “dócil” seja alvo de manipulação a favor de sua subordinação, adequando-se aos moldes do contexto societário vigente, vale ressaltar que a naturalização desse contexto societário mencionado, leva a muitas mulheres serem opressoras de outras mulheres, visto que uma vez naturalizadas a um discurso machista hierárquico, a reprodução deste é uma realidade que é independente do gênero. A naturalização da violência, neste caso a psicológica, é uma problemática que vem ganhando ênfase nas pautas de luta dos movimentos sociais pela dificuldade que existe em tratar do assunto como um fator criminal e perpétuo na rotina familiar de um casal ou simplesmente nas relações sociais entre homens e mulheres (COLOSSE e FALKE, 2003). Por muito tempo as mulheres foram vítimas de violência em seus próprios lares e essa realidade ainda é uma constante em nossa conjuntura que se esforça na manutenção de caracteres patriarcais hegemônicos para justificar atos de agressão culpabilizando as vítimas, dominando-as e mantendo-as sob controle. Violência e poder, mencionados nos parágrafos anteriores, são categorias trabalhadas por Boudieu (1998) direcionadas a discutir o processo de dominação por meio de sistemas simbólicos de integração social que o legitimam, tornando-o natural e irredutível. Cabe dizer que a violência psicológica contra a mulher trata-se de uma agressão viabilizada pelo poder simbólico. “O poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem” (BOURDIEU, 1989, p. 7). Corroborando com as ideias de Marx, Boudieu completa: “A cultura dominante contribui para a integração real da classe dominante [...]; para a integração fictícia da sociedade no seu conjunto, portanto, à desmobilização (falsa consciência) das classes dominadas; para a legitimação da ordem estabelecida por meio do estabelecimento das distinções (hierarquias) e para a legitimação dessas distinções” (op. cit., p. 10). O autor ressalva a importância da falsa consciência para que se mantenha a ordem estabilizando hierarquias. Essa ordem é reproduzida por meio dos símbolos que representam as sociedades por meio da linguística, da arte, da religião, aspectos que condicionam o comportamento entre os gêneros reforçando papéis sociais que doutrinam, estabelecem regras e normas justificadas pela moral que fundamenta a mulher como uma “propriedade privada”. De acordo com Andrade (2003), usando mecanismos de correção como insultos e ameaças para o alcance desse fim. A moral silencia as agressões e justifica os atos transferindo a culpa para a vítima que amedrontada pelo julgamento social se auto mutila comprometendo sua integridade física e psicológica.

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Publicado

30/08/2018

Edição

Seção

Resumos do I Congresso Internacional de Direito Público dos Direitos Humanos e Políticas de Igualdade