UMA QUESTÃO SOBRE O EXISTIR E O RECONHECIMENTO: UMA ANÁLISE SOBRE A DELINQUÊNCIA JUVENIL NO CONTEMPORÂNEO

Autores

  • Roseane Farias da Silva Aleluia

Palavras-chave:

Delinquência. Adolescência. Winnicott. Teoria do Reconhecimento

Resumo

O adolescer é um estágio complexo e decisivo do processo do amadurecimento humano. Envolto nessa trama intermediária, o adolescente enfrenta uma crise, pois tal travessia comporta grandes mudanças que se iniciam, visivelmente, com as transformações no corpo. Mais que isso, as alterações da puberdade são acompanhadas de conflitos e questões angustiantes, dos quais, alguns deles, são apenas uma reativação de conflitos infantis. Há uma necessidade de sentir-se vivo e real, uma busca por ser alguém, por uma sensação de pertencimento, o que justifica dizer que na adolescência há uma problemática em torno do existir, o que se relaciona com a incidência da violência e da subversão, durante essa fase. Frente à tamanha turbulência, o adolescente luta por encontrar respostas às suas questões, o que acarreta implicações não apenas em si mesmo, mas também para o laço social. Winnicott dedicou-se ao desenvolvimento de uma teoria do amadurecimento afetivo, em que atribui extrema importância ao ambiente e à família como capazes de favorecer a continuidade da existência. Segundo o autor, quando este ambiente falha, a criança chegará à adolescência sem recursos próprios para atender aos novos sentimentos e tolerar situações que envolvem ansiedade intolerável. Winnicott tratará da íntima relação entre tais dificuldades, tidas como “normais” durante a fase da adolescência, e a tendência à delinquência. Aqui está o ponto nevrálgico que dar corpo à questão desse trabalho, visto que na teoria winnicottiana, a raiz da tendência antissocial – tal como é nomeada por ele - sempre está na existência de uma privação ou carência, ou seja, algo da ordem de um comprometimento nas relações primárias fundamentais e estruturantes da criança com as figuras parentais, ou mais especificamente com a mãe. Para ele, a delinquência pode ser compreendida como uma busca para reencontrar aquela época primordial em que as coisas ocorriam bem, em que o ambiente lhe proporcionava segurança e autoconfiança, onde nele a criança podia depositar sua agressividade. Por meio da conduta delinquente, o adolescente estaria tentando uma reparação, como que compelindo a sociedade a retroceder com ela àquele tempo e a testemunhar e reconhecer suas grandes perdas. O trabalho realizado em um CAPS AD do município de Maceió torna notório o pensamento de Winnicott, pois no cotidiano de uma escuta clínica que se faz diariamente nesta instituição é possível perceber o quanto a relação delinquência, drogas e adolescência tem se constituído num triângulo difícil de desfazer; pois enquanto os pais ou responsáveis buscam uma solução das mãos do poder público, os adolescentes estão tentando dar visibilidade, reconhecimento ao seu sofrimento e com isso obter uma resolução. Partindo da experiência de uma prática profissional, a presente pesquisa analisa tal relação entre delinquência e adolescência propondo um diálogo entre a ideia winnicottiana sobre a tendência antissocial e a teoria do reconhecimento proposta por Axel Honneth, a qual aponta a necessidade que todo ser humano tem de ser reconhecido e que isso não está dado à priori, sendo, portanto, necessário empreender uma lutar por ele. Nesse âmbito, Honnett apresenta três esferas do reconhecimento intersubjetivo: a esfera do amor que se inicia no vínculo afetivo com a figura materna; a esfera jurídica nas relações de direito que se inauguram quando, por exemplo, é dado à criança o direito de ser filho de alguém e por isso ter um nome reconhecidamente legal; e a esfera da estima social quando o sujeito tem seu reconhecimento no âmbito das relações sociais e de solidariedade. Quando tais formas de reconhecimento falham, Honneth apresenta as três formas de não-reconhecimento que seriam a violação, a privação de direitos e a degradação. Desse modo, é possível estabelecer uma linha interpretativa e argumentativa, partindo do pensamento winnicottiano e da teoria do reconhecimento, para o fenômeno da delinquência na atualidade, dando visibilidade à questão por via de uma perspectiva que priorize o cuidado e o amparo em contrário ao modelo punitivo a que esses jovens estão submetidos na contemporaneidade.

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Publicado

01/09/2018

Edição

Seção

Resumos do I Congresso Internacional de Direito Público dos Direitos Humanos e Políticas de Igualdade