VIVÊNCIAS DE REFLEXÃO, DESCONSTRUÇÃO E AFETO: O PROJETO VER-SUS COMO UMA FERRAMENTA POSSÍVEL PARA A AMPLIAÇÃO DA FORMAÇÃO ACADÊMICA

Autores

  • Lannay Egidia Pereira dos Santos
  • Nayara Alexandra Rodrigues da Silva

Palavras-chave:

Educação em saúde. Ver-sus. Formação ampliada

Resumo

O VER-SUS - Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde - é um projeto vinculado à Rede Unida, órgão ligado ao eixo de educação em saúde do Ministério da Saúde. A proposta vem mobilizando há quase 10 anos, estudantes de diferentes formações para além da saúde, profissionais, e membros de movimentos sociais a vivenciar e discutir questões ligadas à saúde, ao funcionamento do SUS, opressões sociais, conjuntura política, entre outras demandas pertinentes a nossa sociedade. Esse relato tem como objetivo trazer a tona a experiência de viventes do projeto em perceber paralelos com o que foi construído durante os dias de sua vivência e como aquele produto de afetos e questionamentos tem potencialidades para se remodelar e repensar algumas relações de desigualdade da nossa sociedade. O projeto se destaca por permitir aos seus participantes a oportunidade de ampliar suas formações através da imersão ora nos serviços de saúde e aparatos sociais e populares das comunidades onde estão inseridos, ora no cotidiano, pois passam vários dias dormindo e acordando juntos, possibilitando a formação de vínculos e afetos, bem como de espaços de acolhimento e problematização acerca da realidade que visitaram e de suas próprias demandas. Tendo em vista que o sujeito que se submete a passar por essa vivência, acaba ampliando os diálogos de sua formação tanto profissional quanto pessoal, onde é convidado a se retirar de seu cotidiano teórico e se aproximar do que muitas vezes dentro grade curricular não é vivenciado, e sim, distanciado. Diante de todas as possibilidades de abertura que o processo movimenta no interior dos sujeitos, logo, causam inquietações relacionadas às suas formações, didáticas de professores e até mesmo em suas práticas diárias. Com a intenção de romper ainda mais com as barreiras que muitas vezes a academia constrói, a própria metodologia da vivência é pensada de modo a tensionar reflexões e amplificar sentimentos: A programação do evento é dividida de forma que sejam contempladas temáticas referentes à saúde, como os níveis de atenção do cuidado por exemplo, mas também são propostos eixos que desafiam os viventes a pensar além das caixinhas do processo saúde doença biomédico, pautado na presença ou ausência de sintomas, os viventes do VER-SUS são convidados a se permitirem serem tocados por questões ligadas de racismo, LGBTTfobia, machismo, intolerância religiosa e de como esses elementos afetam diretamente as formas de se construir uma ideia de saúde para quem lida com esses processos diariamente. As comissões organizadoras de cada estado são livres para organizarem sua programação, mas no entanto, principalmente a partir das transformações sócio-políticas que o país vem sofrendo, vem se percebendo o quão importante tem sido retirar das margens assuntos outrora negligenciados, reconhecer que não se adoece só do corpo, e que os futuros profissionais da saúde ou não, precisam agregar às suas formações as violências que os indivíduos sofrem por amarem de uma forma diferente do padrão heteronormativo, por terem um cor de pele que ainda causa estranhamento e por vivenciarem uma religiosidade que foge do modelo cristão dominante. O projeto se propõe a romper com o que é considerado normal e tradicional dentro de uma sociedade que foi ensinada a condenar tudo que foge desse padrão que é racista, homofóbico, machista e burguês. Viventes, comissão organizadora - C.O. e facilitadores constroem um ambiente repleto de possibilidades para inclusão de sujeitos que são protagonistas desses contextos de vida, processo esse se inicia desde o cuidado inicial da C.O em pesar na seleção questões de representatividade e diversidade o que acaba potencializando a efetividade desses diálogos e resultam em criações de estratégias de cuidado e na quebra de um modelo hegemônico tradicional de fazer saúde e de entender o processo de adoecimento do sujeito. Quem passou pela experiência do VER-SUS é mais uma vez desafiado a voltar para seu convívio, seja acadêmico, profissional e/ou de militância com uma nova forma de encarar as demandas sociais e de saúde que seu contexto de vida possibilita e com isso refletir sobre como pode ser também agente transformador dessa realidade, atuando de forma a combater todo e qualquer tipo de violência ou de desigualdades, propondo formas equânimes e integrais de oferecer acolhimento e cuidado aqueles que ele tem a oportunidade de afetar com sua experiência.

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Publicado

01/09/2018

Edição

Seção

Resumos do I Congresso Internacional de Direito Público dos Direitos Humanos e Políticas de Igualdade