AS VELHAS BRUXAS, AS NOVAS BRUXAS E A OCUPAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO

Autores

  • Mariana Alves Santos
  • Telma Low Silva Junqueira

Palavras-chave:

Espaço público. Feminismos. Assédio verbal

Resumo

O presente estudo trata-se de uma pesquisa qualitativa que busca compreender os sentidos produzidos por 03 mulheres residentes na cidade de Maceió acerca do assédio verbal e a maneira como este pode afetar a inserção e ocupação delas no espaço público. Considerando a cidade de Maceió como recorte uma vez que é o local de residência e vivencia enquanto mulher da autora e das entrevistadas. Esta capital carrega em sua história o peso da exploração de suas terras e população para a monocultura agrícola, perpetuada de algum modo até os dias de hoje, ambiente este que tende a favorecer a reprodução de um sistema de cristalização da função social feminina como o de mantenedora do lar e subordinada a um suposto chefe familiar. Neste contexto, Maceió tem se mantido como uma das capitais mais violentas do país, com maior índice de homicídios por arma de fogo, proporcionalmente, como divulgado pelo Mapa da Violência de 2016 e alto índice de assassinato de mulheres (WAISELFISZ, 2015, 2016). Ainda que nos últimos anos tenha havido uma mudança em relação ao sexo do/a chefe/a familiar, posto que as mulheres tem ocupado cada vez mais essa função, devido à ausência do homem como companheiro/pai das/os filhas/os, nos casos das relações heterossexuais. Considero como espaço público os lugares de circulação na cidade, seja em via pública – ruas, parques, praças – ou ambiente privado destinado ao trânsito de pessoas – shopping centers, por exemplo. Lugares esses de ocupação da população em geral, mas que podem excluir ou, ao menos, evitar circulação e ocupação de parte das pessoas, especialmente devido à raça, gênero, classe social das mesmas. As expressões cada vez mais frequentes de repúdio de grupos de mulheres locais contra o machismo, a violência de gênero, incluindo o próprio assédio, também foram consideradas de forma a reconhecer a importância de pesquisas, publicações e discussões a respeito. Apesar do debate sobre violência de gênero ser bastante diversificado, parece haver uma lacuna quando se refere ao assédio verbal em específico, ao menos até recentemente com autoras e pesquisadoras que voltaram a se dedicar ao assunto de forma a expor tais situações e procurando validar tal discussão na sociedade. Visto que, como observado nesta pesquisa, há quem entenda esse fenômeno do assédio como elogio, admiração etc. Tal forma de violência tende a ser velada e muitas vezes significada como “cantadas”, seja pelas pessoas que a perpetuam, geralmente homens, ou pelas próprias vítimas, na maioria das vezes mulheres, que assim podem se identificar ou não. Essas têm apenas o propósito de reafirmar uma relação de poder existente entre os sexos advinda de uma construção secular de objetificação da mulher na sociedade patriarcal. Fazendo um debate a partir de uma discussão sobre gênero, feminismos e violência de gênero, proponho apresentar nesse trabalho os resultados de uma investigação qualitativa junto a 03 mulheres residentes em Maceió, com 20, 37 e 51 anos de idade. O objetivo era entender como elas produzem sentidos acerca do assédio verbal no espaço público, como se sentem em relação ao tema e como compreendem a construção social do masculino e feminino em seus cotidianos de vida. Realizei entrevistas semiestruturadas, cujos dados produzidos foram examinados a partir da análise de conteúdo de Laurence Bardin (1977). A pesquisa seguiu os cuidados éticos propostos, sendo aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFAL, as entrevistadas se disponibilizaram a participar da investigação, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Contextualizando sobre como se deu o contato com as participantes, estas foram convidadas a partir dos ambientes de vivência da autora. A mais velha delas, divorciada, com filhos/as já adultos/as, era voluntária do programa de estágio obrigatório em que encontrava-se vinculada. A mulher de 37 anos, negra, à época, grávida e em relacionamento estável, fazia parte da equipe de limpeza responsável pela manutenção do bloco de estudos da universidade em que estudava. A mais nova e última, branca, em um relacionamento homoafetivo no período da pesquisa, fazia parte de um grupo de mulheres que encontrava-se periodicamente para discussões sobre gênero e feminismos em um bar local. Além disso, as duas mais velhas pareciam demonstrar um comportamento e falas mais conservadoras e tradicionais, justificados, em parte, por sua religião: ambas são evangélicas. Os resultados apontaram para a existência de pontos convergentes e divergentes a partir das falas das entrevistadas. Porém, um ponto comum, foi que todas passaram por alguma experiência, se não muitas, de assédio verbal, considerando, assim, tal agressão uma forma de violência. Por fim, foi percebido um desejo para que haja um equilíbrio do poder nas relações estabelecidas entre homens e mulheres.

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Publicado

02/09/2018

Edição

Seção

Resumos do I Congresso Internacional de Direito Público dos Direitos Humanos e Políticas de Igualdade