Rever o passado para estigmatizar um presente incômodo: Montano e outros “heresiarcas” do século II no olhar de Euclides da Cunha sobre Antonio Conselheiro

Autores

  • Pedro Lima Vasconcellos

DOI:

https://doi.org/10.28998/rchvl7n14.2016.0003

Resumo

O artigo trata de como Euclides da Cunha, em Os sertões, aborda líderes cristãos do século II, tomados como heréticos, em vistas a estigmatizar a figura de Antonio Conselheiro. Particularmente o teor milenarista do anúncio de Montano, aplicado sem mais como chave interpretativa da pregação do Conselheiro, serve para afirmar a inviabilidade histórica do que o Belo Monte (mais conhecido como Canudos) representava para os homens e mulheres do sertão que nele apostaram suas vidas. Destaca-se como o equívoco do autor se deve também ao preconceito com a religião e com o lugar central que ela ocupava no projeto conselheirista.

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Publicado

31/12/2016

Como Citar

Vasconcellos, P. L. (2016). Rever o passado para estigmatizar um presente incômodo: Montano e outros “heresiarcas” do século II no olhar de Euclides da Cunha sobre Antonio Conselheiro. Revista Crítica Histórica, 7(14). https://doi.org/10.28998/rchvl7n14.2016.0003