Ser um trabalhador/tornar-se um abacataense: criança, socialização e identidade em uma Comunidade Quilombola da Amazônia-PA

Autores

  • Maria Amoras UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
  • Maria Angelica Motta-Maués UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

Palavras-chave:

Antropologia da Criança, infância quilombola, criança, trabalho, Abacatal-PA

Resumo

Este estudo analisa o tornar-se abacataense, visando compreender o significado ‘nativo’ do “trabalho” na perspectiva das crianças que crescem na comunidade do Abacatal(PA), o qual é aqui traduzido como suas tarefas “obrigatórias” e “espontâneas”, isto é, aquilo que elas definem como “ajudas” e chamam de (cuidar d’)’as minhas coisas, envolvendo “obrigação”, “solidariedade”, “dever” e “gosto”, ou como as crianças dizem lá: “a criança trabalha ajudando”. Apresenta a criança e suas configurações familiares e focaliza aspectos do “ser criança” e da experiência da “infância”, de modo que seja possível compreender quem são essas crianças, o lugar que ocupam na vida social de Abacatal e como, se tornam um trabalhador/um abacataense.  Abacatal, que se autodefine como rural e quilombola, localiza-se na área metropolitana da grande Belém-PA. A análise busca entender os processos de aprendizado e de desenvolvimento infantil através das próprias concepções locais de criança e do crescimento e considera o modo como as crianças intervêm ativamente nesses processos. A família e a organização doméstica são abordadas como espaços de experiências onde as crianças tornam-se trabalhadoras, compreendidas como uma prática de “autopoiesis”, isto é, de produção de significados sobre o seu mundo. Experiência que também é motivada pelos processos de aprendizagem e socialização no e para o trabalho.

 

Biografia do Autor

Maria Amoras, UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

Doutora em Antropologia, docente do Curso de Serviço Social da Universidade Federal do Pará - UFPA

Maria Angelica Motta-Maués, UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

Doutora em Antropologia, docente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, do Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará.

Referências

ACEVEDO, R. M.; CASTRO, E. No caminho de pedras do Abacatal: experiência social de grupos negros no Pará. Belém: NAEA/UFPA, 2004.

BOURDIEU, Pierre. Esboço de uma teoria da prática. Portugal: Celta Editora. 2002.

BRANDÃO. Carlos Rodrigues. O que é Educação. Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Brasiliense. 1981.

CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. O Eu, suas identidades e o mundo moral. Anuário Antropológico, Rio de Janeiro, 2002.

CARDOSO DE OLIVEIRA Luís Roberto. Honra, Dignidade e Reciprocidade. Série Antropologia, 344. Brasília, 2004

CARNEIRO, Maria José. Do “Rural” como categoria de pensamento e como categoria analítica. In: CARNEIRO, Maria José (Org.). Ruralidades Contemporâneas: modos de viver e pensar o rural na sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Maumad X: FAPERJ, 2012.

CERTAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

COHN, Clarice. Antropologia da criança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

_____ A Experiência da infância e o aprendizado entre os Xikrin. In:

SILVA, Aracy Lopes da & NUNES, Angela. Contribuições da etnologia indígena brasileira à antropologia da criança. In: Crianças Indígenas Ensaios Antropológicos. São Paulo: Global Editora, 2002.

COSTA, Dora Henrique & CALVÃO, Léa. Trabalho Infantil. In: FRIGOTTO, Galdêncio & CIAVATTA, Maria. A experiência do trabalho e a educação básica. Rio de Janeiro: Lamparina, 201

EVANS-PRITCHARD, E.E. Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota. São Paulo: Perspectiva, 2011.

FIRTH, Raymond. Elementos de organização social. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

FONSECA, Claudia. Caminhos da adoção. São Paulo: Cortez, 1995.

GARCIA Jr., Afrânio Raul Garcia. Terra de trabalho: trabalho familiar de pequenos produtores. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

GREGORI, Maria Filomena. Viração. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

ITURRA, Raúl. A epistemologia da infância: ensaio de antropologia da educação. Educação, Sociedade & Cultura. Universidade do Porto. Vol. 17, 2002, p. 135-153.

_____ O processo educativo: ensino ou aprendizagem. Educação, Sociedade & Cultura. Universidade do Porto. Vol. 1, 1994

JAMES, A. & PROUT, A. Re-Presenting Childhood: Time and Transition in the Study of Childhood. In: JAMES A. & PROUT, A. Constructing and Reconstructing Childhood. Basingstoke: Falmer Press, 1990.

LAGO, Syane de Paula da Costa. Namoro pra casar? Namoro pra escolher (com quem casar): idéias e práticas de namoro entre jovens em Belém/PA. 2002. 122 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Mestrado em Antropologia, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém

LÉVINAS, Emmanuel. Entre Nós: ensaios sobre a alteridade. Petrópolis-RJ: Vozes, 2010.

MALINOWSKI, B. Argonautas do pacífico ocidental. São Paulo: Abril Cultural, 1976.

MAUSS, M. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cortez, 2003.

MEAD, Margaret. Coming of age in Samoa. PAIDOS: Barcelona, 1961

MENDONÇA, Kátia. Valores para a Paz. Belém: UFPA, 2013.

MOTTA-MAUÉS, Maria Angelica . Na “casa da mãe”/na “casa do pai”: Anotações (de uma antropóloga e avó) em torno da “circulação” de crianças. REVISTA DE ANTROPOLOGIA, SÃO PAULO, USP, 2004, V. 47 Nº 2.

_____ “Trabalhadeiras” & “Camarados”: relações de gênero, simbolismo e ritualização numa comunidade amazônica. Belém: IFCH/UFPA, 1993.

_____ Uma vez “cria” sempre “cria” (?): adoção, gênero e geração na Amazonia. In: Nortes Antropológicos: trajetos, trajetórias. LEITÃO, Wilma M & MAUÉS, Heraldo (Orgs.). Belém: EDUFPA, 2008.

_____ Uma mãe leva a outra. Práticas informais (mas nem tanto) de “circulação de crianças” na Amazonia. Scripta Nova. Revista Eletrónica de Geografia y Ciencias Sociales, Barcelona, Vol. 16 (2012) .

NUNES, Angela. “Brincando de ser criança”: contribuições da etnologia indígena brasileira à antropologia da infância. Tese de doutoramento, Departamento de Antropologia, ISCTE, Lisboa, Portugal, 2003.

PIRES, Flávia Ferreira. Quem tem medo do mal-assombro?: religião e infância no semiárido nordestino. Rio de Janeiro: E-papers; João Pessoa: UFPB, 2011.

_____ O que as crianças podem fazer pela antropologia? Horizontes. Antropológicos. [online]. 2010, vol.16, n.34, pp. 137-157. ISSN 0104-7183.

_____ Pesquisando crianças e infância: abordagens teóricas para o estudo das (e com as) crianças. Cadernos de campo, São Paulo, n. 17, p. 1-348, 2008.

PANTOJA, Ana Lídia Nauar. Sendo mãe, sendo pai: sexualidade, reprodução e afetividade entre adolescentes de grupos populares em Belém /Tese (Doutorado) Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Belém, 2007.

PANTOJA, Mariana Ciavatta. Os Milton: cem anos de história nos seringais. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2004.

PRIORE, Mary Del. Ao Sul do Corpo: condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. Rio de Janeiro: José Olympio-DF: Edunb, 1993

QVORTRUP, Jeans. A volta do papel das crianças no contrato geracional. Rev. Bras. Educ.[online]. v.16, n.47, p. 323-332. 2011.

SAHLINS, Marschall. Metáforas históricas e realidades míticas: Estrutura nos primórdios da história do reino das ilhas Sandwich. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. Ilhas de História. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.

SARTI, Cyntia Andersen. A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres. São Paulo: Autores Associados, 1996.

SCHNEIDER, Sérgio. Agricultura e trabalho infantil: uma apreciação crítica do estudo da OIT. Porto Alegre: Instituto de Formação Sindical Irmão Miguel, Série Documentos, 1, 2005.

SILVA, Aracy Lopes da & NUNES, Angela. Contribuições da etnologia indígena brasileira à antropologia da criança. In: Crianças Indígenas Ensaios Antropológicos. São Paulo: Global Editora, 2002.

STROPASOLAS, Valmir Luis. Trabalho Infantil no Campo: do problema social ao objeto sociológico. Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho, Ano 17, nº 27, 2012, 249-286.

TOREN, Christina. Making History: the significance of childhood cognition for a comparative anthropolology of mind. 1993.

_____ Como sabemos o que é verdade? O caso do Mana em Fiji. Revista Mana, 2006, p. 449-477.

_____ A matéria da imaginação: o que podemos aprender com as idéias das crianças fijianas sobre suas verdades como adultos. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 16, n 34, p. 19-48, jul./dez. 2010.

_____ “Comparison and ontogeny”. In: (ed. Gingrich, A. e Fox, R.) Antropology by comparison: Routledg, 2002.

_____ Becoming a Christian in Fiji: an ethnographic study of ontogeny. Royal Anthropological Institute. Journal of the Royal Anthropological Institute. (N.S.) 10,221-240. Londres, 2004

VELHO, Gilberto. Família e Subjetividade. In: Pensando a Família no Brasil. ALMEIDA, Ângela Mendes de (Org.).Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1987.

WAGLEY, Charles. Uma comunidade amazônica. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Brasília: INL, 1977.

WOORTMANN, F. Hellen. A árvore da memória. Série Antropologia. Brasília, 1994.

WOORTMANN, Klaas. “Com parente não se neguceia”: o campesinato como ordem moral. Anuário Antropológico/87. Editora Universidade de Brasflia/Tempo Brasileiro, 1990.

Downloads

Publicado

14/05/2018

Como Citar

Amoras, M., & Motta-Maués, M. A. (2018). Ser um trabalhador/tornar-se um abacataense: criança, socialização e identidade em uma Comunidade Quilombola da Amazônia-PA. Latitude, 10(2). Recuperado de https://www.seer.ufal.br/index.php/latitude/article/view/2508

Edição

Seção

Dossiê "Ser criança no Brasil de hoje: (re)invenções da infância em contextos de mudança social"